Inkas
Inovação
A reforma do clichê: 17 coisas que insistimos em fazer

Dois mil e dezesseis. Mais um ano começando e em comum com vários outros inícios de ano, hábitos que permanecem arraigados e pensamentos que há décadas são iguais, intocados e que quase nunca paramos para refletir se existe uma nova forma de fazer.

Por um lado, achamos que já somos supermodernos porque quase sempre aceitamos as novidades que aparecem no dia a dia. Mas por outro, diariamente replicamos comportamentos, ideias, atitudes e ações sem nos perguntar se precisa ser daquele jeito.

É por isso que quando falamos em inovação as pessoas vão logo achando que é difícil fazer acontecer, porque com frequência acreditam que para inovar é preciso criar algo do zero, inédito, mas se esquecem de que todos os dias temos a oportunidade de fazer algo de uma forma diferente e nova.

Falei sobre o poder do hábito em “Da pasta de dentes ao fast-food: o marketing e o poder do hábito”.

1) Reuniões, presentações em slides e emails

Se tem algo que precisa evoluir urgentemente é a maneira de se fazer reuniões e criar apresentações.

Ano após ano, sempre que as pessoas precisam criar o famoso “PPT” para um trabalho escolar ou apresentação corporativa, sem titubear abrem logo o PowerPoint, escolhem um modelo pronto e preenchem cada um dos slides com longos textos, massivos e chatos. E ai o que acontece? Passa a apresentação toda lendo o que estava ali. Poxa, usasse o Word então, né?

Boas apresentações precisam antes de tudo ter um roteiro, só depois ir para o slide. Assim você garante uma história lógica, com começo, meio e fim. Se você conta uma história e sabe essa lógica, poderá trocar slides recheados de textos que todo mundo vai odiar, por imagens que ao bater o olho você saberá o que queria dizer. E assim, a plateia vai prestar atenção em você, porque não precisará ler seu slide ou dormir na sua apresentação.

Foi assim que eu vendi um projeto milionário certa vez. Criei uma apresentação visual e com protótipos do produto que o cliente queria. Apresentei, todos entenderam e ficaram encantados, não existiram dúvidas e o negócio foi fechado.

O modo de fazer reuniões também precisa mudar. Será que é preciso fazer reunião com tanta frequência? Não dá pra resolver o assunto reunindo as pessoas necessárias em uma conversa em pé por 5 ou 10 minutos? Steve Jobs chegava a expulsar pessoas não necessárias em suas reuniões, sem dó nem piedade, tudo em nome do projeto.

E o jeito de escrever e-mail? Tem gente que é tão formal que chega a escrever “Venho por meio desta..”. Isso choca muito, por favor, pare! Lembre-se que ali não tem entonação, então as coisas precisam ser bem claras. Usar um “favor fazer tal coisa” é mais rude do que “por favor, você poderia fazer tal coisa?”.

Ao escrever um email coloque o suficiente, garanta que tenha começo, meio e fim, envolva apenas as pessoas necessárias, use um título certeiro e sem mistérios. Eu tive um gestor que escrevia emails enormes, sem pé nem cabeça e copiava Deus e o mundo. Era um burburinho quando a mensagem chegava, todo mundo se perguntando se haviam entendido bem.

2) O fazer e participar de processos seletivos e criar currículos

Atuo no mercado há alguns anos e desde que me conheço por gente os processos seletivos são bem parecidos. Abrem a vaga, anunciam com poucos detalhes e às vezes pedem algo fora do comum por um salário ridículo. Querem encontrar um superman. Os candidatos enviam seus tradicionais currículos.doc, formatados da mesma forma chata desde que surgiu o computador e a ferramenta de textos. Imprimem ou anexam, entregam. Nem sempre existe gestão desses arquivos, nem sempre são adequados à vaga.

Às vezes, a vaga fica lá aberta por semanas e mais gente enviando currículo na esperança, mas a verdade é que a vaga já foi preenchida.

Ai, na entrevista, tudo acontece igual. As perguntas-pegadinhas do tipo “conte-me um defeito e uma qualidade”, que certamente será respondida pelo candidato com um “sou líder, motivado e criado” mas “sou um pouco perfeccionista”. Todos riem e pronto, mais um clichê sendo replicado.

Em “O curriculum vitae morreu: o que funciona então?” falei sobre o assunto e dei várias dicas para fazer um currículo diferente e incrível.

Em “Charges ironizam termos mais usados no LinkedIn”, Fernanda Brunsizian, Gerente Sênior de Comunicação do LinkedIn para a América Latina, diz que “a campanha é um convite para que as pessoas repensem chavões corporativos e sejam mais naturais em seus perfis, usando uma linguagem próxima à vida real. Uma das maiores vantagens das redes sociais são as conversas que elas proporcionam e também podemos conversar em um contexto profissional”. Vale a pena ler.

3) A forma de se apresentar e os nomes de cargos

Aquele velho hábito de perguntar “onde você trabalha” ou “qual seu cargo”, que logo é respondido com um “sou gerente de tal empresa”. Mas a verdade é que as coisas mudaram tanto que não necessariamente pertencemos a algum lugar. Podemos ser freelances, empreendedores. E quer saber? Nomes de cargos não importam mais, porque em cada empresa eles podem significar atuações diferentes.

Você não precisa começar se apresentando com um “sou gerente de tal empresa”. Eu aprendi depois de minha primeira demissão que não “sou”, no máximo “estou”, quando se trata de uma empresa que não é minha. Cargos são passageiros e eu não posso me resumir a um título. Antes de tudo eu sou a Flavia, que ama viajar, ler, escrever e animais de estimação.

Novos cargos e modelos de trabalho vão surgir, muita coisa que ainda nem existe. Ficar preso a isso é limitar-se.

Leia “Growth hacker, pilotos de drones e profissões que ainda não foram inventadas”.

4) O jeito de gerenciar e a ultravalorização da hierarquia

Já sabemos que existem líderes e chefes, certo? Líderes são admirados e queridos, chefes estão ali apenas para cumprir tabela e mandar. Uma tendência é que com o passar dos anos a hierarquia não signifique mais tanto e que novos jeitos de gerenciar, por exemplo, focado em metas e deixando que cada profissional encontre a melhor forma de fazê-lo, sem pedidos absurdos, sem ultravalorização de hierarquia, com espaço para contribuições e proatividade de verdade. Porque tem gente que afirma que é o moderninho da gestão, mas na hora de permitir que sua equipe seja proativa de verdade, não permite.

Neste sentido é legal ler o que escrevi em “Até quando o padrão será trabalhar das 8 às 18h?” e artigos relacionados a metodologias ágeis, nos quais um modelo baseado em colaboração entre equipes sem hierarquias tem funcionado bem. Meus artigos sobre Scrum estão em “10 artigos sobre Scrum que valem por um curso”.

5) As frases de efeito e o fato de não se aplicarem na prática

Diariamente compartilhamos lindas frases de efeito nas redes sociais, que nem sempre sabemos por quem foi dita ou que às vezes encaixamos como bem entendemos em nosso contexto.

O problema é que elas só ficam no papel muitas vezes. Compartilhar no Facebook não faz aquilo acontecer. O mesmo acontece quando na entrevista de emprego ou no currículo você usa os famosos bordões, que parecem ter sido resgatados de um banco de bordões que todo mundo consulta e diz ser.

6) As promessas de virada de ano e de segundas-feiras

Trinta e um de dezembro e todo mundo promete que o próximo ano será diferente, como se ele fosse algo distante. Ai, quando o dia primeiro de janeiro começa bate a frustração: o ano já começou. Ai as promessas começam a ser empurradas com a barriga do tipo “deixa passar as festividades”, “deixa passar o carnaval”, “depois da páscoa eu faço” ou o popular “segunda-feira eu começo”. Por que não hoje? Sim, dá preguiça. Mas só reclamar e prometer não muda situações.

7) O jeito de dar e assistir aulas

Como somos avançados, não? Cada um tem seu celular. Cada um tem seu computador. Muitas escolas e universidades tem lousas digitais, mas infelizmente elas estão paradas e tudo o que vemos é o uso do projetor multimídia como um velho mimeógrafo. A pura transposição do que estaria no papel, agora projetado num telão.

Todo mundo sentadinho, um atrás do outro. O professor em pé fazendo o papel de sabichão. Alunos enrolando, dando desculpas e torcendo pra aula acabar logo e chegar o próximo feriado.

Quando é que isso tudo vai mudar? Temos tanto acesso a informação que agora o papel do professor mudou. Você pode encontrar tudo na internet, mas quem vai conectar tudo aquilo, te dizer no que focar e te inspirar com novas ideias provavelmente será o professor. Faz sentido continuarmos sentados um atrás do outro? Faz sentido pedir trabalhos cujas respostas estão prontas na internet? Faz sentido desconsiderar que uma geração nova aprende diferente e que mesmo com um celular ou um Facebook aberto e até ouvindo música é capaz de aprender?

Veja que incrível o que o filósofo Gilles Deleuze diz sobre “o que é uma aula?”.

8) As consultas médicas e o negar-se em entregar conteúdo

Médicos, vocês precisam considerar que hoje as pessoas tem acesso a informação e que em muitos casos prestam tanta atenção em seus corpos, que sabem muito sobre eles. Mas o problema é que, devido aos problemas que temos no sistema de saúde brasileiro, uma consulta médica quase nunca passa de 5 minutos e não existe nenhuma forma de considerar o paciente como um todo.

Essa semana peguei uma virose, mas senti vontade de não ir ao médico. É que infelizmente ao chegar lá ele vai olhar pra minha cara, medir minha pressão e ouvir meu coração. E pronto. Não terei tempo de contar exatamente o que houve comigo e ele não tem acesso a um histórico sobre mim, nem tempo para isso. Vai receitar um soro ou uma injeção e diagnosticar o que eu já sabia: virose.

Outro dia ouvi uma nutricionista dizendo que odiava o fato das pessoas querem tirar dúvidas com ela o tempo todo. Ei, querida, use isso a seu favor. Ao invés de se negar, porque não cativar seu potencial novo paciente entregando alguma dica bacana? Pode ter certeza que em seguida ele vai marcar uma consulta com você, ai sim você fará um atendimento completo. Hoje muitos profissionais descobriram que entregar conteúdo, em um blog, por exemplo, é uma forma se fortalecer sua imagem e tornar-se referência, o que atrai mais negócios.

Leia: “Como um bom conteúdo pode fazê-lo vender mais”

9) A velha forma de fazer marketing

Muita gente continua achando que marketing é algo a ser usado apenas quando o negócio está indo mal, ou que marketing é esfregar produto na cara do cliente. Recomendo que leia: “Como o marketing passou de coadjuvante para o coração do negócio” , “8 lições de Kotler sobre o novo marketing”, “Hyper connected: Como ser visto em meio a tanto conteúdo” e “5 motivos para rever o marketing do seu negócio”.

10) A política, o jeitinho brasileiro e a acomodação com o que está ruim

A cada dia nossa política piora. Só escândalos e falcatruas, mas parece que a gente nem liga e suporta, né? Não conseguimos peitar e ir à luta, enquanto não nos incomoda muita, nada fazemos. Reclamamos da corrupção, mas em muitos casos aceitamos subornos, propinas, estacionamos em vagas que não são nossas e reproduzimos tudo aquilo que criticamos. Por anos e anos a fio.

11) O apedrejamento de pessoas e ideias: do real para o digital

Antes, alguém que fosse considerado fora da linha era apedrejado em praça pública. Mas agora o apedrejamento acontece digitalmente. Fora de contexto uma imagem ou texto podem fazer estragos. As pessoas se sentem protegidas atrás de suas telas e se coçam para dizer o que vem à cabeça, tudo o que não diriam pessoalmente. Precisamos respeitar a diversidade. Neste sentido, viajar é bem benéfico: quando você sai do seu mundinho e descobre que é só mais um ponto no universo, você aprende a se colocar no seu lugar.

12) O repúdio ao modelo UBER

Ai aparece o UBER, que inclusive tratou de apoiar a inclusão e via aplicativo permitiu que deficientes auditivos pudessem trabalhar como motoristas e junto com a novidade o velho modo de pensar de alguns: “não apoio, vai tirar o trabalho dos taxistas”.

Olha, me desculpe, mas eu sou fã do UBER, da economia compartilhada e de muitas dessas novidades que estão sendo construídas em rede e quebrando paradigmas. Não me venha dizer que vai tirar emprego de alguém. Que esse alguém se reinvente antes de ser consumido.

Há décadas atrás existiam pessoas que eram pagas para acender lâmpadas nas ruas e telefonistas que manualmente transferiam ligações. Essas profissões não existem mais, porque a tecnologia fez o processo evoluir. Será que o temor no fim dessas profissões não teria impedido de avançarmos e chegarmos ao que temos hoje? Convém permitir-se um pouco antes de sair julgando os novos modelos.

Saiba mais sobre a economia compartilhada em “Vida on-demand: Tripda, Airbnb, EatWith e a economia compartilhada.” e entenda mais sobre como as coisas evoluem o tempo todo e as características das novas gerações em “A morte dos shoppings, o fim do Facebook e o futuro criado pelos millenialls”

13) A insistência em se usar como amostragem de algo

Ai alguém critica alguma coisa ou revela que tal alimento faz mal à saúde. E logo aparecendo alguém dizendo “ah isso é balela, como todo dia xxx e nunca me fez mal”. Olha, me desculpe, mas usar a si mesmo como amostragem é piada. Por acaso você foi estudado profundamente pra saber se aquela coisa realmente não está te matando aos pouquinhos?

14) O hábito de imprimir o que poderia ficar apenas no digital

“Ei, cliente, faça check-in on-line ou compre sua passagem pela internet, mas não se esqueça de trazer o comprovante impresso.” Acho que aqui não preciso dizer mais nada. Quantos processos se dizem modernos, mas na hora H são tradicionais?

15) O não-me-reles-não-me-toques de alguns cargos e titulações

Ah, os doutores e PHDs que se acham. Eles estão em toda parte e se sentem a última bolacha – ou biscoito do pacote. Chame-o de doutor, por favor. Senão ele se zanga. Isso sem falar nas pessoas que só valorizam quem tem o cargo ou o título X. Sinto lhe dizer que essa fase ficou pra trás e hoje está em alta quem sabe ser acessível e bacana, compartilha seus conhecimentos e realiza, não quem promete algo só no papel.

16) A resistência da academia ao mercado

Eu fiz mestrado e posso afirmar que existe um valor enorme na pesquisa científica. Mas precisamos valorizar também o conhecimento e as experiências práticas do mercado. Não se pode rechaçar algo apenas por não ser um material científico. Meu mestrado teve uma abordagem profissional, direcionei à pesquisa a algo prático de mercado, mas tive as mesmas cobranças que um mestrado acadêmico cobraria. Então, que tal valorizarmos também o mercado?

17) E a última: o acúmulo de leituras, o êxtase e o engavetamento das ideias

Outro velho hábito clichê nosso é ler muita coisa bacana, empolgar-se, mas não colocar em prática. Que tal fazer algo diferente ainda hoje? Não espere a segunda-feira 😉

Flávia Gamonar
posts 76
words/post 1510
media 180
comments 1
visits 125746

Leave a Comment

Name*
Email*
Website