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Tendências digitais
Até quando o padrão será trabalhar das 8 às 18h?

Imagine trabalhar de qualquer lugar do mundo e sem horários fixos, como na imagem deste artigo? Acredite, muita gente já vive dessa forma.

Com a evolução da tecnologia estamos assistindo mudanças em relação às formas de trabalho na vida das pessoas. Os dispositivos móveis, a banda larga e as conexões sem fio e as aplicações em cloud computing possibilitam que profissionais de diversas áreas trabalhem e se comuniquem a qualquer hora e local, extinguindo fronteiras de localização e horários.

Já existem os chamados nômades digitais, que criaram formas de trabalhar de qualquer lugar do mundo, produzindo conteúdos e sendo remunerados por isso, por exemplo. Eles trocam a rotina por viagens e trabalho on-line, como o casal publicitários Débora Corrano e Felipe Pacheco, que deixaram seus empregos para trabalhar como autônomos a partir de casa, realizando reuniões por vídeoconferência como o Skype. Ainda não há estatísticas sobre o nomadismo digital do mundo, mas um dos principais marcos do movimento é o livro Trabalhe 4 horas por semana, de Tim Ferris, publicado em 2007 e que se debruça sobre as técnicas de como trabalhar online e por menos horas. (Leia mais sobre isso no blog do Estadão).

Existe uma infinidade de novos trabalhos surgindo, como os que apontei no artigo “Growth hacker, pilotos de drones e as profissões que ainda não foram inventadas”.

As novas gerações também influenciam estas modificações, como as que citei no artigo que viralizou na semana passada e alcançou mais de 300 mil visualizações, “A morte dos shoppings, o fim do Facebook e o futuro criado pelos Millennials”. A verdade é que essas gerações e o avanço da tecnologia nos levarão a novas profissões e novos jeito de encarar o trabalho e de trabalhar.

De fato, já existem muitas pessoas trabalhando a partir de suas casas e essa flexibilidade impacta positivamente, garantindo mais tempo com a família, menos estresse e mais tempo para dormir. Essas adequações a novos modelos de trabalho representam uma tendência sem volta, principalmente por causa das novas gerações de profissionais que agora estão chegando nas empresas e que valorizam mais do que nunca o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e a flexibilidade.

Apesar de saber disso, às vezes me pego refletindo sobre modelos antigos que ainda temos fortemente arraigados em nós e que impactam tanto de tantas formas. A maioria das organizações ainda está presa a esses modelos de trabalho e replica comportamentos, decisões, regras e atitudes que nem sempre são refletidas, são apenas passadas adiante.

Vamos levar este assunto a uma outra estância e relacioná-lo, de fato, às novas gerações. Sou professora universitária e toda vez que dou aula me sinto incomodada por em pleno 2015 ainda estar diante do mesmo cenário que existe há décadas: carteiras, alunos sentados um atrás do outro e um professor em pé na frente deles. Como é que esse modelo se sustenta? A verdade é que não se sustenta mais. Eu adoraria ter uma enorme mesa e ter meus alunos sentados ao redor dela e juntos discutirmos assuntos, penso que isso os estimularia a participar mais. Mas como é que vamos querer mesas enormes se existem tantos problemas na educação, não é mesmo? Tem gente que nem acesso a educação tem.

Preciso entender que meus alunos não são mais os mesmos de outra época. Fui pegar a chave do laboratório dia desses e uma professora estava pedindo para bloquearem tudo que pudessem na internet para que seus alunos prestassem atenção nela. Cada um tem suas escolhas e respeito, mas eu não peço para bloquearem Facebook em sala de aula e não dou bronca se estão olhando para o celular. Eu entendo plenamente que não há como pedir para que eles se desconectem e olhem apenas pra mim. Eu estou ciente de que eles podem aprender enquanto fazem outras coisas e não vou lutar contra isso: é característica da geração deles ser multitarefas e vamos combinar que estou lidando com adultos, eles tem liberdade de me ouvir ou não, pagam a faculdade.

Eu fui aluna até outro dia e me incomodava demais passar horas sentada olhando um professor falar sem usar nada que pudesse deixar a aula mais atrativa. Eu aprenderia melhor com imagens, com atividades que não tivessem respostas prontas e me fizessem refletir, mas fui obrigada a fazer trabalhos e provas óbvios, cujas respostas eu poderia encontrar na internet.

Com o passar do tempo e o avanço das tecnologias novos modos de se estudar surgem, como o EAD, que ainda tem muito para crescer. Cursos baseados em apenas ler PDF´s on-line pra mim ainda não são o modelo ideal. Ainda são apenas a transposição de algo que poderia estar no papel e funcionar igual. É preciso mais: vídeos, interações, discussões e plataformas especialmente desenhadas para tal.

Com a conexão sem fio e os dispositivos móveis nos tornamos hiperconectados e temos um excesso de conteúdo à disposição. Instituições oferecem cursos aos montes, gratuitos, pagos a preços interessantes e aos milhares, de grandes nomes, como é a proposta dos MOOC´s. Percebo que estamos diante de uma grande revolução: podemos estudar por contra própria e ao buscar o conteúdo que queremos estudar podemos fazer o estudo ser muito mais proveitoso.

Apesar de tudo isso muita gente ainda trabalha das 8h às 18h. Ainda nos locomovemos para um lugar no qual passaremos o dia sentados na frente de um computador fazendo algo que poderia ser feito em home office ou em horários alternativos. Mas isso não acontece porque o modelo tradicional reina e sequer se discute esta alternativa, porque muitos gestores querem funcionários debaixo de seus narizes.

Como profissional de marketing entendo claramente que existem marcas que precisam de alguém publicando conteúdo e interagindo com seus fãs em mídias sociais não das 8h às 18h, mas na sexta-feira ou no sábado a noite dependendo do produto que vendem. Não faz sentido responder o comentário de um cliente que disse estar tomando o vinho de sua marca no final de semana apenas na segunda de manhã. Neste sentido, surgem novos modelos, um profissional conectado em horários alternativos para responder comentários e gerenciar crises. Além disso, buscar brechas de gerar mais interações com seu público, como foi o caso do Bis, que aproveitou as críticas sobre a imagem de um post para criar montagens que divertiram seus fãs.

O surgimento de novas profissões, de novos tipos de negócios e demandas devem impactar os modelos de trabalho atuais nos próximos anos. Existirá um confronto de crenças e preferências em relação a outras gerações, como a dos baby boomers, tão acostumados a trabalhar longas horas e valorizar fortemente a remuneração. Millennials buscam desafios, são multitarefas, preferem trabalhar em equipe e querem equilíbrio entre vida profissional e social.

Uma pesquisa anual da Delloite chamada de “The Deloitte Millennial Survey 2015 – Mind the Gaps” relevou que as empresas deverão se concentrar em pessoas, não apenas em produtos e lucros no século 21. As constatações deste inquérito mostram que serão necessárias mudanças significativas para atrair e reter a futura força de trabalho. As novas gerações não trabalham apenas por dinheiro, elas buscam outras coisas. Foram entrevistados 7.800 de líderes de amanhã, de 29 países. Dentre os insights, alguns deles chamam muita atenção. Setenta e cinco por cento da geração Millennials ouvida apontou que as emrpesas estão focados em suas próprias agendas em vez de ajudar a melhorar a sociedade, apenas 28% deles acreditam que a empresa em que trabalham atualmente utiliza plenamente suas habilidades e mais da metade (53%) querem tornar-se líderes ou executivos.

Outra pesquisa aborda “O futuro do trabalho: impactos e desafios para as organizações no Brasil” e foi realizado para entender como as organizações estão encarando esses desafios e de que forma eles afetam suas estratégias de negócios. A pesquisa foi realizada pela PwC e ouviu 113 organizações de diferentes setores da economia.

A análise das informações coletadas relevou que as empresas brasileiras estão conscientes de que mudanças estruturais estão transformando o trabalho e as expectativas dos profissionais. Elas reconhecem a dificuldade em obter profissionais qualificados, surgimento de ovas expectativas e valores em relação ao trabalho, impacto da tecnologia e da comunicação e mudanças demográficas. A maioria das empresas reconheceu a necessidade de mudanças em suas estratégias de gestão de pessoas, mas na prática continuam dando ênfase a políticas de remuneração e desenvolvimento. Pouco está sendo feto para aumentar a flexibilidade de horário e local de trabalho e contemplar a necessidade dos trabalhadores em relação à construção de suas carreiras.

As pesquisas complementares revelaram que para os jovens, da geração do milênio, a remuneração não constitui o principal benefício esperado: eles esperam aprendizado e horários flexíveis de trabalho.

Dentre as barreiras para adotar modelos mais flexíveis, os respondentes disseram que existem impeditivos legais e de dificuldades de gestão de culturas. Muitos deles estão ligados à legislação e à complexividade da regulamentação do trabalho no Brasil.

Novas possibilidades

A tendência é que num futuro breve trabalho seja algo que se faz, não um lugar para onde se vai. Já existem empresas, como a Bosch e a Volvo, que adotaram horários alternativos e funcionários se organizando em redes colaborativas. Isso inclusive me lembra muito a essência das metodologias ágeis de trabalho, como o Scrum, pautado em equipes auto-organizáveis em torno de metas e inexistência de hierarquias.

Os espaços de trabalho terão a cara de seus donos. Não necessariamente será mais um escritório, mas o jardim, o café, locais de passagem, coworkings, salas de jogos, etc. No Buscapé funcionários podem trabalhar de redes. No LinkedIn, em diversos espaços diferenciados e salas de reunião inspiradas em São Paulo, como o ambiente que remete ao Parque Ibirapuera.

As próprias configurações desses lugares vai mudar, porque se não existirem mais lugares fixos, os espaços serão rotativos. Essas práticas ajudarão a economizar. Um case é a Philips, na qual 80% dos funcionários se dividem entre trabalho remoto e presencial e na Cisco, onde dois terços trabalham remotamente.

Outra tendência é a das empresas se espalharem por diversos pontos da cidade, mantendo uma sede em algum desses lugares. São ações que contribuirão com a mobilidade e evitarão que as pessoas percam um tempo enorme se deslocando até um determinado lugar e piorando o trânsito.

Estes dados todos são reforçados pela pesquisa Reinventando Carreiras – Funcionários do Futuro, realizada pelo CONECTA, plataforma web do IBOPE Inteligência, realizada em outubro de 2015, que afirma que as empresas do futuro devem ter horário flexível e remuneração variável e que a globalização permitirá trabalhar com profissionais de uma mesma equipe alocados em diferentes países. A pesquisa ouviu opiniões de cerca de mil internautas sobre o futuro do mercado de trabalho e o perfil desse novo profissional. Segundo 54% dos entrevistados, no futuro os funcionários poderão estabelecer seu horário de trabalho contanto que cumpram o mínimo exigido pela empresa e 77% gostariam que isso efetivamente acontecesse. Provavelmente em decorrência dessa flexibilidade, para 53% a remuneração será totalmente variável, de acordo com a produção de cada funcionário. Essa liberdade, entretanto, deve vir acompanhada de maior vigilância e monitoramento em tempo real, segundo 54% dos entrevistados. Em relação ao local de trabalho, pouco mais da metade (55%) acredita que será possível trabalhar de qualquer lugar, que as equipes devem ser compostas por profissionais alocados em diferentes países (68%) e essa maior liberdade fará com que seja possível os profissionais trabalharem em mais de uma empresa ao mesmo tempo (57%). Entretanto, a estrutura hierárquica mais tradicional não deve acabar segundo 53% dos entrevistados.

Talvez você também goste de ler “As profissões que mais rapidamente serão substituídas por máquinas, tecnologia ou inteligência artificial, pesquisa realizada pelo Ibope.

Este é o futuro. E ele não está tão longe assim.

Leitura recomendada: Livro Trabalho Portátil, de André Brik e Marina Sell Brik, que apresenta um modelo de programa de teletrabalho para empresas que desejam enviar parte dos seus colaboradores para executar suas atividades remotamente e, com isso, aproveitar todos os benefícios que esta modalidade oferece.

Flávia Gamonar
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