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Comportamento
Clicar é um ato público: o poder de destruição e voz de um clique

Há alguns anos, quando a internet não era colaborativa como é hoje, apenas consumíamos o que estava on-line. Eu me lembro muito bem dos primeiros jornais neste novo contexto, basicamente uma cópia digital de suas versões impressas. Nenhuma forma de comentar aquele conteúdo, tampouco redes sociais para compartilhar seus links, endossá-los, criticá-los ou concordar com eles publicamente e de forma completamente descontrolada e, muitas vezes, não rastreável pela fonte original.

Passamos ao cenário em que tudo está a um clique agora. Podemos até consumir essa mídia de modo privado se desejarmos. Entretanto, a partir do momento em que escrevemos, clicamos ou compartilhamos, seja em blogs, Twitter, Facebook, Linkedin, Instagram se torna um ato público. E não importa se estou fazendo isso em casa, usando pijamas e embaixo de edredom pensando que estou protegida pela tela que está à minha frente. Continua sendo público.

Antes, éramos os leitores. Agora, todos nós somos editores, mesmo que não tenhamos produzido nenhum conteúdo autoral. Em “Nós, os media”, de Dan Gilmor, um colunista de tecnologia no “San Jose Mercury News”, trata o tema da transformação do jornalismo, de um meio de comunicação de massa do século XX, até algo mais cívico e democrático. O conceito de cidadão-jornalista é um dos focos do livro, comentando que qualquer um que produzir informação dará voz a pessoas que não a tem tido.

O simples fato de levar algo adiante, de compartilhar, de enviar, de endossar, nos torna um tipo de editor criando milhões de timelines personalizadas e protegidas por suas bolhas ideológicas pautadas pelos algoritmos e pelo machine learning. Como editores, nós escolhemos o que receberá atenção e, somando nossos esforços, somos capazes de criar verdadeiros caos. Não é o que acontece quando todos nos olhamos para algo na internet e decidimos que aquilo precisa ser investigado, punido, escancarado?

Direcionamos a atenção à algo baseado no que damos atenção. É mais ou menos como a mídia funciona neste contexto atual. Geralmente, as pessoas que reclamam do lixo que é levado adiante e que ganha atenção, são as mesmas que em algum momento contribuíram para que isso acontecesse quando clicaram em algo do tipo. Clicar dá voz, aumenta, expande, faz crescer exponencialmente.

Clicar pode destruir uma vida e assistimos isso acontecer nos vários casos noticiados em que alguém foi divulgado como criminoso e foi espancado até a morte por um grupo nas ruas, mas só depois descobriu-se que era um boato da internet e que a vingança estava errada. Vimos acontecer também quando uma esposa traiu seu marido e foi vítima das piores brincadeiras na internet. Vimos novamente quando por um pequeno erro de percurso decidiram destruir publicamente a imagem de uma garota empreendedora que em um final de semana conseguiu ter sua vida destruída.

Espalhar conteúdo falso e nojento contribui para piorar nossa sociedade. Não concordar com algo e gastar tempo com aquilo, enviando palavras negativas, não faz aquilo desaparecer.

Pelo contrário, só piora, pois coloca um holofote. Deixar que seus impulsos mais selvagens venham à tona pelo simples fato de existir uma tela “protegendo”, não o torna alguém melhor. É preciso, todos os dias, se perguntar se você faria aquela mesma coisa pessoalmente, olhando nos olhos. Se sua família se orgulharia daquilo. Se aquilo, em outro contexto ou recorte, poderia ser um grande problema. Ou, ainda, se aquelas palavras ou ações poderão voltar à tona lá na frente, de modo irremediável.

Um cenário ruidoso que levou à todo tipo de informação

Há alguns anos quase não existia conteúdo on-line para ser consumido, a internet estava “sendo criada”. Mas agora, quando olhamos ao nosso redor, vemos o quanto estamos imersos em uma quantidade absurda de conteúdos, bons e maus. Infelizmente, muitos deles lixo, batos, falsos, as populares fake-news. E aí, para sermos vistos, precisamos fazer ainda mais barulho. Entretanto, quando nada mais parece ser novidade, vemos a que ponto pode chegar o ser humano quando ele decide que para ser visto fará algo nojento e que passa dos limites.

Em “Weaponized Lies”, Daniel Levitin cita que é preocupante que a palavra do ano de 2016 para o Dicionário Oxford seja “pós verdade”, cuja definição é “um adjetivo relacionado ou denotando circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal”. O autor diz que precisamos urgentemente voltar à verdade anterior, porque tudo isso afeta uma geração de cidadãos, pois fizeram mentiras proliferarem em nossa cultura em um grau sem precedentes. Um dos casos foi a mentira de que a pizzaria de Washington, DC Comet Ping Pong estava executando uma operação de escravidão sexual liderada por Hillary Clinton, que um homem a dirigir 350 milhas de sua casa para Washington, DC, e disparar sua arma semiautomática dentro da pizzaria no domingo, 4 de dezembro de 2016 (apenas dias depois de “pós-verdade” se tornar a palavra do ano).

Outros eufemismos para mentiras são contra-conhecimento, meias-verdades, visões extremas, verdade absoluta, teorias de conspiração e, a denominação mais recente, “fake-news”. O autor acredita que não há dois lados para uma história quando um lado é uma mentira e que os jornalistas – e o resto de nós – devem parar de dar tempo igual a coisas que não têm um lado oposto baseado em fatos.

Mentiras são uma ausência de fatos e, em muitos casos, uma contradição direta deles. Uma era pós-verdade é uma era de irracionalidade voluntária, que reverte todos os grandes avanços que a humanidade fez. O certo nem seria dar esse “nome bonito” chamando de fake-news, mas chamá-los de mentirosos, mesmo.

A verdade precisa importar, mas o que será que vem acontecendo que faz com que as pessoas acreditem em tudo que veem? Talvez o fato de as pessoas lerem poucos livros e seja um dos problemas. A melhor defesa contra os mentirosos é cada um de nós aprender a se tornar pensadores críticos.

Como não contribuir com esse cenário caótico

Um caminho para não mais um a colocar lenha na fogueira é usar sua inteligência para refletir antes de ser impulsivo no meio digital. Pergunte-se sempre se você diria aquilo ao vivo, se aquilo é verdade ou pode ser boato, se aquilo pode ser injusto com alguém, se alguém está sendo humilhado e maltratado sem ao menos ter sua versão ouvida.

Precisamos parar de clicar nos lixos, de dar voz a eles, de enviar mensagens negativas a alguém que escreveu sobre algo que discordamos, porque tudo isso é sobre fazê-los crescer. Cada um tem seus gostos próprios, então, se você não gosta de algo, apenas não gaste tempo com aquilo, porque o mundo é plural e outras pessoas podem gostar, já que não existe uma verdade universal.

“A humilhação pública é um desporto sangrento que tem que acabar”, disse Monica Lewinsky em sua palestra no TED em 2015. Ela foi doente número zero a perder uma reputação pessoal a uma escala mundial, quase instantaneamente. Naquela época não existia o conceito de cyberbulling. Hoje, o tipo de humilhação pública online por que ela passou tornou-se permanente — e pode ser mortal.

Logo que os blogs surgiram e que o Twitter começou a ser usado, o foco era outro. Diários virtuais, confissões do dia a dia. E logo eles viraram potentes máquinas de comunicação e também de destruição, porque descobrimos que por ali poderíamos fazer algo a respeito do que quiséssemos quando não gostássemos de algo, numa humilhação midiática pautada por uma espécie de democratização da justiça.

Então, se alguém comete qualquer deslize, pode estar completamente desumanizado em menos de vinte e quatro horas. Em uma palestra de Ron Jonson, escritor e cineasta, ele comenta o caso de Justine Sacco, uma relações pública de Nova York com 170 seguidores no Twitter, que costumava postar piadinhas. Antes de tomar um voo para Londres, fez mais algumas de suas piadinhas e uma delas pegou extremamente mal, mas ele só iria descobrir isso onze horas depois quando seu voo chegasse e sua vida já estaria completamente destruída pelo tribunal da internet, que incluíam mensagens chamando-a de vaca, vadia e pedindo para que ela fosse demitida. Ainda que Justine tenha sido racista e feito uma ironia descabida, assim que desligou o celular e ficou off-line por 11 horas, teve sua vida devastada, sem chance de defesa. Mesmo estando errada, não se justifica o que o tribunal da internet fez com ela em poucas horas, agindo com as próprias mãos, perseguindo, ameaçando, tirando fotos, pedindo que fosse demitida. Jon Ronson até a entrevistou para saber se ela havia dito aquilo mesmo e ela explicou que era exatamente uma ironia, que foi mal interpretada.

A questão maior é que quando alguém publica algo que soa mal na internet, temos dois lados de reflexão, um sobre a responsabilidade que precisamos ter ao dizer ou clicar em algo e outro sobre o quanto passamos dos limites querendo agir com as próprias mãos, porque há casos em que mal entendidos ou mesmo invasões de perfis acontecem e pessoas inocentes são apedrejadas e prejudicadas para sempre.

O futurista Juan Enriquez traz o conceito de tatuagem digital à tona, ao defender que assim como as tatuagens das pessoas dizem muito sobre elas, as mídias digitais que utilizamos também criam tatuagens que falam sobre quem somos. E elas não podem ser apagadas. Neste risco, entram também as tecnologias de reconhecimento facial. Em 2012 o Facebook comprou a empresa Faces.com e a partir daí integrou a tecnologia de reconhecimento facial às fotos que publicamos. Na base de dados deles agora existem mais de 18 bilhões de rostos reconhecidos. Isso significa que, a partir daí, seria possível rastrear rostos e descobrir muitas informações sobre aquela pessoal, mais um exemplo de como as tatuagens digitais funcionam.

O que tudo isso tem a dizer? Que precisamos ser mais responsáveis sobre o que espalhamos na internet, porque um clique pode destruir ou matar e uma frase pode ficar gravada como uma tatuagem que não poderá ser apagada. Se agora somos os media, precisamos ao menos saber da responsabilidade que isso carrega.

Flávia Gamonar
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