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Marketing e carreira
Como eu NÃO planejei ter a profissão que tenho hoje

Foi-se o tempo em que planejar seu futuro profissional era uma espécie de combo do McDonalds, o popular da propaganda “peça pelo número” do tipo “me vê um combo gerente de marketing acompanhado de MBA na área com molho de sucesso e refrigerante light.”

As coisas mudaram e você precisa considerar o que vou te dizer.

Aos meus dezessete anos precisei decidir o que queria fazer da vida. Aquele conhecido momento de decidir-se por uma universidade e um curso, carregando um peso enorme das costas: era a escolha de um curso que guiaria todo o resto da minha vida? Uma espécie de sentença sem volta?

Bem, hoje tenho 31 anos e vejo que talvez naquela época fosse assim. “Faça Letras e atue exclusivamente como professor”. “Faça Direito e atue exclusivamente como advogado ou vá para os concursos públicos”.
Mas hoje em dia nada disso faz sentido e eu vou te contar como foi comigo.

A escolha do futuro aos dezessete anos

Com dezessete anos eu não tinha ideia do que queria estudar. Naquela época me passava pela cabeça fazer Relações Públicas, mas quando eu pensava no quanto era tímida (felizmente o tempo me tornou o oposto) e que no interior do estado não encontraria trabalho, desistia imediatamente da opção.

Então, eu fiz algo que não recomendo a ninguém: escolhi fazer Letras porque gostava de língua espanhola e porque um amigo fazia o curso. Sim, apenas isso. Eu gostava de ensinar, mas entrei sabendo que não queria, por exemplo, virar professora de português, porque eu gostava de tecnologia também e queria trabalhar com ela de alguma forma, mas não a ponto de fazer um curso de TI.

Eu também escolhi este curso porque era o que eu podia pagar. Aquela velha crença de que só tem valor quem tem curso superior, não importa em que área, custe o que custar. Felizmente, hoje essa crença ficou lá trás (é claro que ainda tem gente que supervaloriza cargos, infelizmente).

Foi difícil concluir o curso e eu me virava para pagá-lo dando algumas aulas de espanhol. Não me sentia motivada porque não amava o assunto e queria apenas concluir o curso. Cheguei a trancá-lo. Cheguei a começar outro. Mas decidi terminar por não compensava parar naquele ponto. Eu estava triste porque acreditava que estava caminhando para fazer o que eu não queria no futuro.

Mesmo com essas dúvidas, por gostar de ensinar e de língua espanhola eu criei um portal na internet para ensinar o idioma e lá alcancei 100 mil alunos no Brasil. Em 2005 ganhei o prêmio Ibest como um dos três melhores sites de educação do Brasil. E foi por lá que conheci o cara que hoje é marido, esse portal foi construído em parceria com ele (ele no interior da Bahia e eu no interior de SP, a distância). Essa foi minha primeira experiência empreendedora e com criação de produtos.

O primeiro emprego na área que queria

Consegui um emprego na área de educação, para atuar em uma empresa de tecnologia. Lá consegui conciliar então a formação em Letras e a área de tecnologia que eu tanto queria. As coisas começavam a melhorar.

No meu dia a dia o tino para tecnologia e a área de produtos foi me levou a atuar em projetos que envolviam comunicar produtos, criar materiais sobre eles, e até mesmo me aventurar no marketing de alguns produtos. Isso me trouxe algumas respostas naquele momento.

A primeira promoção

Surgiu a oportunidade de mudar de área e ser analista de produtos. Encarei a oportunidade e passei na seleção interna. Ali eu unia educação e tecnologia e as coisas faziam sentido. Então, por trabalhar com produtos de software, fui estudar também metodologias ágeis para gerenciamento e desenvolvimento de produtos. Fui certificada em um dos papeis do Scrum e virei membro da Scrum Alliance.

Algum tempo depois, petulantemente quis estudar gerenciamento de produtos na ESPM. “Quanta petulância dessa garota, almejar ser gerente de produtos tão cedo assim, há poucos meses tinha começado a ser analista”, era o que eu ouvia.

A segunda promoção

Pois bem, eu fiz o curso de gerenciamento de produtos e alguns meses depois virei gerente de produtos. Eu atrai o que eu queria e consegui isso com minhas ações e empenho.

O que eu ouvi naquela época por ter estudado essas coisas diferentes? Que era “sem foco”. Para muita gente o correto era eu fazer uma pós na mesma área da graduação e me tornar uma especialista naquele assunto.

Se eu tivesse ouvido quem me disse que estudar gerenciamento de produtos era petulância ou falta de foco, eu teria ficado parada naquela posição para sempre.

O mestrado

Então, surgiu o mestrado em mídia e tecnologia e eu estudei muito para passar no processo seletivo. Dias e mais dias lendo muitos livros. Passei, ufa!

Mais uma vez consegui unir os assuntos que eu gostava: mídia, tecnologia e sem deixar de lado a educação, afinal, o mestrado me abriria portas para ser professora universitária, algo que eu também queria. O que fiz na dissertação? Planejei e prototipei um software, uma rede social de nicho e ali consegui mais uma vez unir tudo que estudei anteriormente e ainda estudar mais sobre modelos de negócios (tão essenciais para qualquer produto ou negócio).

Se tem um conselho que posso te dar é que nem sempre ser o especialista em algo é melhor: ao abrir o leque eu ampliei as possibilidades de trabalho para mim.
A terceira promoção

Meses depois fui promovida pela terceira vez, convidada a assumir uma equipe de marketing. Encarei o desafio e foi ali que de fato iniciei o futuro que hoje se tornou meu presente. Eu não planejei desde o início ser profissional de marketing, mas hoje eu sou uma. E muito realizada.

A quarta e última promoção: quando eu entendi que podia fazer o que eu quisesse, sem depender de um único emprego

É claro que para atuar em marketing eu busquei outros diversos cursos e li um milhão de livros. Se alguém me disser que esse conhecimento não é válido só porque não foi adquirido em uma graduação, desculpe, mas eu vou ignorar. Afinal, o que é uma graduação ou pós-graduação? É ler, estudar, né? (deixo claro que não estou menosprezando a formação específica, ela é importante).

Ao mergulhar no mundo do marketing eu finalmente havia encontrado minha paixão e busquei aprender muito.

O que eu faço hoje? Bem, eu joguei tudo isso que estudei no liquidificar e saiu uma mistura que me agrada e que eu não havia planejado. Sou gerente de marketing em uma empresa e presto consultorias e aulas em marketing também. Paralelamente, sou professora universitária em cursos de pós-graduação em TI (aqui eu uso meus conhecimentos que trouxe de TI, de Scrum, de gerenciamento de produtos e projetos), Marketing (devido ao que estudo e atuo hoje) e Produção audiovisual (relacionado com o que estudei no mestrado – e veja, está com inscrições abertas, em São Carlos, na UFSCAR).

Por trabalhar com marketing digital eu também convivo de perto com tecnologia e assim eu conciliei tudo o que amava em um pacote só. Agora eu planejo o doutorado também em mídia e tecnologia e meu primeiro negócio próprio: uma startup que está nascendo.

Eu não planejei ser exatamente assim, mas eu não me limitei ou acreditei quando me chamaram de sem foco, nem disse não para as oportunidades que apareceram.

E Letras?

O que fiz com Letras? Foi a base para eu ser professora universitária hoje, afinal, é uma licenciatura. Mas veja só, uma das disciplinas que ministro hoje na universidade é metodologia científica, eu ensino a escrever trabalhos científicos e Letras me trouxe vários ensinamentos. Eu também escrevo artigos no LinkedIn (um deles alcançou quase 500 mil visualizações até o momento) , no meu blog e para alguns clientes, estou escrevendo um livro e montei um curso para ensinar a escrever bons conteúdos no chamado marketing de conteúdo. Aos dezessete anos, quando não existia sequer rede social, eu pensava que com Letras, se eu quisesse escrever só poderia ser poesia em um caderno ou no máximo num livro impresso.

As coisas mudam e pensar com sua cabeça de agora é limitar o que o futuro ainda nem criou.
Nem sempre encontramos o caminho rápido

Nem sempre quem você vê feliz e realizado profissionalmente hoje foi sempre assim. Nem todo mundo dá certo de cara, eu demorei anos para entender o que queria e vejo que decidir um futuro profissional aos dezessete anos é muita responsabilidade.

Felizmente as coisas mudaram e eu te garanto que escolher, no mínimo, estudar o que você gosta e se permitir novas possibilidades é um belo caminho. Não idealize profissões, em poucos anos muitas outras novas nascem e certamente você vai trabalhar com o que não planejou.

Se eu tivesse ouvido o que me disseram e acreditado que eu era sem foco, poderia atuar apenas em uma possibilidade agora. Mas o que eu fiz foi costurar tudo aquilo e usar a meu favor para ampliar possibilidades. E o legal dessa ampliação é que eu não fico refém de trabalho em apenas uma área, eu posso atuar em várias.

Aquela coisa de escolher seu futuro pelo nome de um curso universitário não existe mais. Quantas novas profissões serão necessárias daqui em diante que sequer foram inventadas? Não existirá formação específica para conseguir atuar nelas, nem sempre a academia acompanha o mercado, que é cada vez mais dinâmico e vivo.

Eu escrevo esse artigo pra dizer que está em suas mãos ser o que você quiser. Não aceite moldes prontos, não acredite que apenas ser especialista e muito focado em algo é o único caminho. E não se sinta mal por ter a idade que tem agora sem ainda ter encontrado o seu caminho: só te recomendo não se acomodar, porque tem alguém precisando daquele seu serviço que você ainda nem começou a fazer ou oferecer, por medo de bater tudo isso num liquidificador e se libertar.

Flávia Gamonar
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