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Comportamento
O efeito manada, as janelas quebradas e a coragem virtual coletiva na internet

O comportamento de manada (ou efeito manada) é um termo usado para descrever situações em que indivíduos em grupo reagem todos da mesma forma, embora não exista uma direção planejada. Esse termo refere-se originalmente ao comportamento animal.

Mas para falar desse assunto convém entender que no mundo animal nem sempre existe uma caminhada em manadas como estratégia para aumentar suas chances de sobrevivência. Eles inclusive podem se atrelar a outros formando repentinamente grupos por puro acaso.

Os elefantes, nômades, se direcionam em busca de alimento e o grupo segue a líder, a fêmea mais velha de todos. É ela quem impõe ordens e garante o alimento de todos. Agrupamentos como estes são fundamentais.

Quando o assunto são abelhas, acredite, elas sabem até votar e enquanto não escolhem o local de sua nova colmeia, ficam acampadas juntas em galhos, sempre unidas. No caso dos elefantes e das abelhas, como citado, existe essa organização. Mas não é necessariamente o que acontece em outras manadas.

Os gnus, por exemplo, correm cada um por si. A estratégia deles é se manterem em família até certo momento, mas quando precisarem migrar uma corrida desenfreada acontecerá e eles vão se separar. Morcegos são unidos, trabalham voando em fileiras durante o voo para fazer um arrastão e engolir insetos em massa, sem diferenciar tipos, tudo é bem vindo.

O efeito manada na espécie humana

Trazendo o efeito manada para a espécie humana, podemos perceber comportamentos semelhantes. Ao reparar em dois restaurantes vazios que você não conheça, certamente terá uma tendência a preferir aquele que tem mais gente, que está mais cheio. E conforme mais pessoas chegam e veem aquele restaurante cheio, mas elas querem ir para ele também, acreditando que por isso estão fazendo uma escolha melhor.

Com a moda também é assim, alguém começa a usar algo e outras pessoas copiam, até que logo todos estão parecidos e enjoam da tendência.

Nem sempre sabemos o que queremos e acabamos sendo influenciados, esse comportamento abre brechas para que aqueles que sabem usar bem as palavras, as imagens, a voz, o marketing, consigam os resultados que quiserem influenciado pessoas. Ao estudar neuromarketing todas essas possibilidades ficam muito claras, é possível manipular o cérebro humano de diversas formas.

Para o nosso cérebro, que gosta de poupar esforços, decisões do passado servem de guias inconscientes para decisões futuras. Quer um exemplo? Um estudo trackeou o que acontecia no cérebro das pessoas quando elas ingeriam refrigerante de cola, sem saber que marca era. O equipamento mostrava que as reações eram iguais, independentemente da marca que tomavam. Entretanto, quando foi anunciado que o refrigerante era Coca Cola, a área que envolve memória no cérebro foi ativada, demonstrando o quanto a marca havia criado sensações na mente do consumidor em outras oportunidades, agora refletidas quando elas ouviam se tratar daquele nome.

Falar sobre efeito manada é também falar sobre o popularmente conhecido como “maria-vai-com-as-outras”. Mas é também falar sobre a teoria das janelas quebradas, um modelo norte-americano de política de segurança pública no enfrentamento e combate ao crime, que acredita que se os pequenos delitos não forem reprimidos, condutas mais graves ocorrerão.

Um experimento: será que os vidros de um carro abandonado serão quebrados?

A Universidade de Stanford (EUA) realizou um experimento de psicologia social. Dois carros idênticos foram deixados na rua, um deles na zona pobre e outro na zona rica da cidade de Nova York. Uma equipe de especialistas acompanhou a conduta das pessoas em cada local. O que o experimento revelou? O carro abandonado na região pobre começou a ser vandalizado em poucas horas, levaram dele tudo que podiam. Já o carro abandonado na região rica, ficou intacto.

Após uma semana intacto, o carro da região rica foi alvo da própria equipe do experimento. Propositalmente quebraram um vidro do automóvel e logo desencadeou-se um processo de destruição do veículo, muito parecido com o que aconteceu com o carro abandonado na região pobre.

Por que um vidro quebrado foi capaz de gerar esse comportamento? A questão não estava no fato de estar em um bairro pobre ou rico, mas na psicologia humana e nas relações sociais.

Ao notar algo deteriorado, a ideia de despreocupação aparece e os códigos de convivência são quebrados, como se não existissem mais regras a serem seguidas, convidando todos a um vale tudo.

A partir desse experimento surgiu a teoria das janelas quebradas, concluindo que o delito é sempre maior nas zonas onde o descuido, a sujeira e a desordem existem. A partir do momento em que um vidro é rachado, as pessoas passam a reparar neles e, logo, estarão quebrados.

Gente que nem sabe onde está se metendo: a coragem coletiva

Recentemente eu fiquei sabendo de uma manifestação de alunos em uma universidade. Um caos foi criado naquele ambiente, vários protestos. Quando um dos professores decidiu perguntar a alguns deles se sabiam sobre o que estavam protestando, muitos deles responderam que apenas estavam ali, juntos, que sequer haviam lido o documento que causada a discórdia. Outros, disseram que não fizeram nada, apenas curtiram ou compartilharam um post, desconhecendo o fato de que no contexto atual isso é um tipo de endosso.

Mídias sociais, efeito manada e a coragem VIRTUAL coletiva

Nas mídias sociais o fenômeno existe é interessante de ser investigado – para não dizer assustador. Faça um post sobre um assunto não polêmico e note um curso calmo e tranquilo, até que um hater apareça e propositalmente queira ir contra ao que foi dito. Pronto, o efeito manada que provoca uma coragem virtual coletiva é iniciado e logo vemos a teoria das janelas quebradas acontecendo.

O curioso desse cenário é perceber que estranhamente as pessoas se sentem fortes e protegidas atrás de suas telas e que podem se tornar ainda maiores no coletivo, criando coragem de fazer algo que jamais fariam se estivessem sozinhas ou sendo vistas olho no olho.

Nas redes sociais, ambientes recheados de pessoas que tem a liberdade de publicar o que desejarem (o que não exclui a existência de um código invisível que deve ser respeitado de acordo com o nicho da ferramenta, tampouco o termo de uso assinado pelo usuário ao decidir usar o serviço), o efeito manada pode ser intensamente percebido. Quantas marcas e pessoas já não foram alvo e viralizaram depois que alguém iniciou uma caçada, provocada por um simples comentário que criou uma tragédia, que incentivou pessoas a levarem adiante algo que sequer tinham certeza ou que não era tão importante assim?

Ambientes virtuais estão cada vez mais perigosos. O ódio é intenso, apenas pelo fato de não poder olhar nos olhos do outro. A coragem cresce. E muitos não percebem que opinião é diferente de argumento. Que o espaço público acaba quando começa a privacidade do outro.

Diversos foram os casos de notícias falsas espalhadas que geraram retaliações a quem sequer tinha culpa sobre aquilo. E muitos outros casos de justiça feita com as próprias mãos, porque o tribunal criado pelos pertencentes do grupo da coragem virtual coletiva decidiram que era hora de agir.

Tudo o que fazemos nas mídias sociais fica gravado como uma tatuagem. E tatuagens são bem difíceis de serem apagadas. Neste contexto, podemos citar como verdadeiras tatuagens digitais. Tudo o que escrevemos e publicamos, tudo o que curtimos e compartilhamos fica registrado e são formas de concordar com o que estava ali exposto.

Para não ser uma vítima e ao mesmo tempo tornar-se um predador, analise seu comportamento. Perceba que atualmente o virtual é a extensão de sua vida real, não se trata mais de um ambiente protegido, avulso, que não interfere no restante. Analise o que você tem feito, pense bastante antes de decidir atacar alguém. Pergunte-se se sua opinião seria a mesma fora da internet e se você teria a mesma coragem de dizer o que diria atrás de uma tela ou motivado por opiniões alheias que, no fundo, não são as suas. Talvez você esteja sendo influenciado e ainda não percebeu. Mas talvez, também, apenas você seja responsabilizado pelo que outra pessoa iniciou e que o fez cair de gaiato. E nem era sua intenção.

Flávia Gamonar
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