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O episódio assustador de Black Mirror que já é realidade no dia a dia

Muita gente ao me redor me dizia que eu devia assistir Black Mirror, uma série de televisão britânica sobre ficção especulativa com temas sombrios e satíricos sobre a sociedade moderna e as consequências imprevistas das novas tecnologias. A série se popularizou depois que foi inserida no catálogo do Netflix.

Então, como os episódios podem ser assistidos avulsos já que a cada um deles os personagens, cenário, história e set mudam, escolhi aleatoriamente. Assisti o primeiro episódio da terceira temporada, chamado de “Nosedive” e fiquei assustada com o que vi, porque percebi o quanto tudo aquilo já é real de alguma forma.

A tecnologia vicia como uma droga. Ainda estamos tentando entender seus efeitos colaterais e tentando fugir de alguns deles, enquanto outros já nos tomaram de forma que será difícil se desvencilhar.

O próprio nome da série denuncia o que já existe e se tornará cada vez mais presente, “o espelho negro” que encontraremos em todos os cantos: paredes, mesas, superfícies por todos os lados, gadgets, wearables, uma fria e brilhante tela de TV, de um monitor ou de um smartphone, ainda mais quando a internet das coisas começar a avançar.

A série é sobre a tênue linha entre a realidade e um futuro não tão distante. Nossa privacidade há muito tempo foi jogada no lixo, somos monitorados, rastreados, comentados, avaliados, algoritmos nos calculam e decidem o que veremos, direcionam nossos comportamentos. Vivemos vidas perfeitas de vidro, com gramas sempre verde nas mídias sociais.

Estamos nas mãos de conglomerados de mídia e meia dúzia de gigantes de tecnologia e achamos isso o máximo. Hoje, 85% dos investimentos em publicidade estão concentrados entre poucos, como Google e Facebook e tudo isso é um tecnopólio, como diria Neil Postman.

O episódio Nosedive mostra a questão da grama verde do vizinho, dos mundos felizes em Instagram e Facebook, das fotos lindas que parecem naturais mas foram milimetricamente posadas, muitas vezes tiradas em contextos de tristeza ou briga, mas que na tela, aos olhos dos outros, exibiam um cenário perfeito e invejável.

Protagonizado por Bryce Dallas, o episódio diz respeito a um mundo imerso em uma rede social, com tons pasteis e pessoas muito educadas e falsas apenas para serem bem avaliadas, com sorrisos e posturas que só existem para garantir de todos ao seu redor uma avaliação positiva, por meio de um aplicativo que é freneticamente usado por todas as pessoas, o tempo todo.

O uso do aplicativo é tão frequente que podemos vê-lo como “a tecnologia como extensão do homem”, que amplia o “os meios de comunicação como extensão do homem”, definido por Marshal McLuhan há tantos anos.

No aplicativo, imediatamente ao cruzar com alguém ou após interagirem de alguma forma, pagando ou não por um serviço, você avalia e é avaliado, o tempo todo

(Aliás, o Netflix lançou esse aplicativo como uma brincadeira! É o Rate me https://rateme.social/ (um trocadilho incrível sobre hate – ódio e de rating – classificação).

E nessas avaliações você pode ser prejudicado ou ter vantagens dependendo de sua pontuação. Ali a meta é ser acima de 4.5, porque pessoas com notas baixas não conseguem sequer entrar em lugares, falar com pessoas, descontos para comprar casas ou escolha de um modelo melhor na hora de alugar um carro.

De alguma forma já fazemos isso no Tinder ao dizer se curtimos alguém ou não, a superficialidade da foto e das poucas informações dadas em não menos que 5 segundos. Já fazemos isso no Instagram quando a partir de uma olhada de 2 segundos damos corações ou não para uma foto, quando dizemos “linda” nos comentários para alguém que lá no fundo odiamos.

O episódio Nosedive de Black Mirror

A saga do episódio nosedive é que a participante chegue a tempo ao casamento de uma amiga, mas uma série de fatores a impedem e no caminho sua pontuação vai baixando.

Tudo começa quando ela se estressa com a atendente do aeroporto que diz que não será possível o embarque por conta de apenas 0.1 em sua pontuação. A personagem se estressa, as pessoas da fila começam a negativá-la e ali mesmo a pontuação vai caindo.

Assim, cada vez mais ela perde pontos e passa de um 4.4 para menos de 2.0 em pouco tempo. Sua amiga liga dizendo que não quer mais que ela vá a seu casamento, porque não quer ninguém de pontuação em uma festa que só terá pessoas com notas acima de 4.6. Mesmo assim, com tantos contratempos, ela insista e chega ao casamento, e piora ainda mais a situação ao pegar o microfone para falar verdades, o que imediatamente leva os convidados a avalia-la negativamente, ao ponto de chegar a menos de 1.0 e ser presa.

Diz pra mim se tudo isso já não acontece de alguma forma? Se pessoas já não são proibidas de frequentar certos circuitos por suas “pontuações morais ou financeiras”? Se influenciadores são escolhidos apenas pela quantidade de curtidas ou seguidores, na maioria das vezes, quando nem sempre apresentam densidade ou qualidade em suas ações?

Algoritmos alterando comportamentos

A consultoria Gartner recentemente publicou previsões tecnológicas para breve e, dentre os pontos alertados, teremos um crescimento da tendência de algoritmos sendo usados para alterar positivamente o comportamento das pessoas. Por meio de uma espécie de assistentes virtuais, vão usar conhecimento baseado em aspectos comportamentais, psicológicos, sociais e cognitivos para levar à tomada de decisões ao realizar uma atividade ou um trabalho, por exemplo.

Neste sentido, um exemplo seria um programa capaz de escutar chamadas de atendimento a cliente e de sugerir ao atendente a melhor maneira de responder à pergunta.

Outra forma de um algoritmo alterar o comportamento de alguém, será por meio de aplicativos capazes de monitorar a rotina de alguém em determinados contextos, gerando vantagens ou desvantagens de acordo com seu perfil em diversas situações.

O tecnopólio e o deslumbre com a tecnologia

Filósofos e estudiosos se preocupam com os usos desenfreados da tecnologia há muito tempo, desde quando tecnologia se limitava a aparelhos televisores. Mas muitos deles assustadoramente acertaram muito do que já vivemos.

Neil Postman, em “Technopoly” é um deles. Para ele, toda tecnologia é um fardo e uma benção, e os tecnófilos (que olham para a tecnologia como um amante olha para uma amada) costumam ver apenas o que a tecnologia faz, mas não o que ela desfaz. Ela pode dar e reduzir poder de alguns, quem serão os beneficiados e os prejudicados? Você é um tecnófilo que só olha o lado bom e se entusiasma mais do que deveria, ou um tecnófobo, avesso e inclinado a enxergar apenas os fardos e as possibilidades que se calam com as novas tecnologias?

As novas tecnologias alteram nosso redor de diversas formas, a estrutura de nossos interesses, nossos pensamentos, símbolos, a natureza da comunidade, criam novas maneiras de se perceber a realidade, criam tecnocratas e tecnopólios.

As timelines, a bolha ideológica e os termos de uso que aceitamos sem ler

Ao realizar uma pesquisa na internet, quem é que garante que o resultado não tenha sido empurrado a você diferente do que outro, em outo contexto ou perfil veria? Tudo o que aparece em sua timeline de Facebook é real? Ou você está ciente de que vive em uma bolha tecnológica?

Não quero parecer pessimista, ou tecnófoba, pelo contrário, sou viciada em tecnologias e isso me assusta. Tento todos os dias ser menos viciada, mas vejo que é realmente uma droga. E me permito estudar o outro lado da moeda, porque como profissional e pesquisadora, eu preciso ver assuntos de vários ângulos.

O documentário “Sujeito a termos e condições”, ressalta a importância de termos ciência sobre tudo o que aceitamos todos os dias. A importância dele é sobre ganhar consciência e entender o modo como tudo o que você aceita, registra, publica ou até desiste de publicar pode ser armazenado e usado, às vezes até contra você mesmo. A partir disso, você consegue  refletir o quanto é usado como um objeto ou produto de diversas ferramentas, o popular “porquinhos da fazenda que se acham beneficiados por uma fazenda cheia de comida grátis (acá, as ferramentas digitais gratuitas e “maravilhosas” que nos oferecem)”, quando na verdade só estão sendo engordados para serem abatidos depois.

Já vivemos muito de Black Mirror e precisamos refletir sobre nosso futuro dominado pela tecnologia. Se existe algo que aprendi é que em nenhum contexto da vida é bom se entusiasmar muito, mesmo que algo pareça incrível no primeiro momento. Portanto, nem mesmo a tecnologia pode ser vista apenas como algo incrível, tudo tem dois lados.

Flávia Gamonar
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