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Empreendedorismo
Vida on-demand: Tripda, Airbnb, EatWith e a economia compartilhada

Talvez você não saiba que os serviços que de repente você mesmo já está usando e que estão em alta no momento fazem parte da chamada economia compartilhada.

Se você já não compra mais CDs porque prefere arquivos digitais, não compra ou alugas mais DVDs, porque pode consumi-los on-line pagando uma assinatura, ou se você ou prefere alugar um carro, pois não compensa ter seu próprio (pagando IPVA) ou tirá-lo da garagem a toda hora, isso é a tal da economia compartilhada.

O que esses serviços tem em comum? Uma rede de recomendações que permite entender a reputação de cada um deles, um tom pessoal que afasta a frieza de modelos anteriores baseado na confiança em pessoas que você nunca viu antes e um novo modo de consumir: ter não é mais poder.

Este é o exemplo de como a gentileza entre desconhecidos e de uma vida on-demand geram novas possibilidades e negócios. O que importa aqui não é possuir, mas experienciar e usar o bem como serviço, apenas quando ele realmente lhe for útil, evitando o acúmulo de tranqueiras. Pra quê comprar um DVD que será assistido no máximo duas vezes e depois vai virar algo mais para acumular pó na estante? Pra quê comprar uma bicicleta que logo vai se tornar velha e será difícil de guardar em seu apartamento se você pode alugar um modelo diferente todo mês? É nesse pensamento que se baseia esse novo modelo.

Aliás, falando em bicicleta, a CompartiBike, criada na incubadora da Poli/USP, baseia-se no compartilhamento de bicicletas e na instalação e gestão de terminais que usuários estacionem suas próprias. Os usuários só pagam uma taxa após um determinado período de uso.  Como mais uma fonte de receita existe a venda de patrocínio e de mídia nas bicicletas e nos totens instalados nos estacionamentos das bicicletas.

Na economia compartilhada a posse se torna obsoleta e sustentabilidade está em alta, pois o modelo transforma o que antes viraria algo encostado e pouco usado em algo que pode ser útil a outras pessoas e ainda virar um negócio. Outro benefício é que quem fornece o serviço pode vendê-lo diversas vezes a pessoas diferentes ou novamente à sua carteira de clientes já formada, ocorrendo o que pode ser chamado de produtização.

O futuro dos negócios é compartilhar.

Imagine um prédio com 200 apartamentos e que cada um deles possui uma furadeira, por exemplo. Certamente, grande parte dos moradores a utiliza pouquíssimas vezes durante o ano e no restante do tempo ficam ociosos, sem uso. Por que não abrir mão dessa posse gerando negócios, lucros e contribuindo com a sustentabilidade? Certamente existe alguém que precisa de uma furadeira em situações esporádicas, mas que não quer ou não precisa comprar uma.

Esses novos serviços assustam as marcas, que se preocupem com uma possível queda na demanda por seus produtos caso as pessoas passem a optar por compartilhar bens em vez de comprá-los.

O Netflix praticamente matou as locadoras de vídeo. Imagine como foi difícil concorrer com um serviço que pode ser acessado de qualquer lugar, que cobra uma assinatura de valor fixo e lhe permite assistir quantos filmes e documentários desejar e que ainda lhe sugere outros conteúdos que possam lhe interessar a partir de seus interesses? Aqui não cabe criticar, são novos tempos e novos serviços e não há como lutar.

O EatWith é outro exemplo de como conectar quem gosta de cozinhar com quem gosta de gastronomia. A plataforma foi criada em Israel e lista anfitriões ao redor do do mundo. Quem quer cozinhar define um cardápio, um número de participantes e quanto será cobrado. O pagamento é feito pela plataforma, que fica com 15% do valor. Os interessados em comer se cadastram, selecionam o que gostam e aguardam o retorno do anfitrião, que não precisa ser um chefe, mas cozinhar bem, ser hospitaleiro e morar em um lugar agradável.  Parece distante do Brasil? Não, não. Vanessa é executiva, mora em São Paulo e é anfitriã que recebe convidados para degustar seu menu de comida tailandesa, composto por três a sete receitas, incluindo coquetéis, água e sobremesa.

Na hotelaria já temos há algum tempo um gigante, o Airbnb. Trata-se de um site que lista e negocia hospedagens e que hoje tem 40 milhões de usuários em mais de 34 mil cidades de 190 países. Seu valor de mercado é superior ao da Marriot Internacional, a maior rede de hotéis do mundo.

Airbnb foi rejeitado 7 vezes antes de valer US$ 25,5 bi

As negativas não impediram que seus fundadores continuassem tentando.  O fracasso muitas vezes é visto como algo ruim, mas a verdade é que ao fracassar você encontrou mais uma maneira sobre como não fazer algo e certamente não repetirá este erro pelo conhecimento que ganhou após passar por ele.

A próxima vez que uma ideia sua for rejeitada, lembre-se do caso Airbnb. Grandes novos negócios que se basearem na entrega de valor de forma sustentável vão surgir. E aqui o céu é o limite para a criatividade.

No Brasil temos mais uma ideia legal, o Tripda, uma plataforma on-line de compartilhamento de caronas, que une motoristas com lugares disponíveis em seus automóveis a pessoas com trajetos similares e que buscam um meio de transporte mais confortável e barato. E olha a sustentabilidade aqui de novo: redução de tráfego e de poluição. O serviço já está em 13 países e tem 150 mil usuários ativos.

Quer mais um exemplo? A ezPark é uma plataforma de compartilhamento de vagas de estacionamento. Um dado interessante diz que 30% do trânsito em São Paulo hoje é gerado por pessoas procurando um lugar para estacionar. A escassez de vagas e os preços altos para estacionar são um imenso problema. Em contrapartida, existem pessoas com vagas desocupadas em determinados dias ou horários que podem alugar o espaço. É o que faz a ezPark, que cobra 30% sobre cada transação.

Se esse modelo ameaça, também possibilita oportunidades e podem chegar a faturar cerca de US$ 335 bilhões até 2025 (de acordo com projeções da consultoria PwC), estamos transitando para um modelo mais consciente e sustentável e a partir de agora a reputação se torna mais importante que o crédito.

As pessoas estão percebendo que ter bens já não garante felicidade, já que nem sempre eles são usados e às vezes geram gastos não necessários para mantê-los apenas para satisfazer o “ter”. Estamos descobrindo como fazer do limão uma limonada, gerando negócios e contribuindo para um mundo mais sustentável.

Flávia Gamonar
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