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Empreendedorismo
Visão de projeto: como algo simples pode evitar refações e prejuízos no desenvolvimento de produtos

Sempre me incomodou a falta de clareza de algumas pessoas ao trabalhar com projetos. Conheci pessoas que mesmo com anos de experiência eram capazes de bagunçar o coreto e deixar toda a equipe envolvida no projeto confusa. Acredite, já fui envolvida em reunião na qual o gerente de projetos convocou vários desenvolvedores de uma vez e já foi pedindo para eles uma rede social “igual ao Facebook em 2 meses”. Eu precisei rir naquele momento, porque fiquei com dó ao perceber o quanto ele era ingênuo do alto de seus 40 anos. Quem é que vai desenvolver uma rede social idêntica ao Facebook e em 2 meses? Pra quê? Ao perguntar pra ele quantas pessoas a usariam ele disse que seriam umas 80 mil. Ai perguntei como seriam as interações entre os usuários e ele me disse que todos poderiam falar com todos e ver o que todos postassem. Não preciso dizer mais nada, né?

Participei como integrante de equipe de alguns projetos durante meus anos trabalhando com software e em quase todos eles pude presenciar inícios de projetos que sequer tinham o cuidado de definir bem o que eles eram exatamente e, pior, de já envolver ou alocar pessoas que trabalhariam no projeto sem oferecer à elas o mínimo contexto sobre os objetivos dele e o papel do colaborador naquilo.

Eu sempre sofri com isso, porque sempre gostei de clareza em tudo. Sou daquelas que acredita que o combinado não sai caro.

O primeiro trauma que eu vivenciei neste sentido foi quando estava trabalhando calmamente em uma terça-feira qualquer e do nada recebi um e-mail que me fez ir chorar escondida no banheiro.

Aquele e-mail partia de uma gerente de projeto que estava em outro escritório da empresa, endereçado ao meu coordenador na época e a mim. Era um e-mail extremamente longo e truncado, mal escrito e eu estava sendo intimida a começar a produzir conteúdos para aquele projeto naquele segundo, sem nem ao menos entender direito sobre o que se tratava. O prazo, como sempre, era pra ontem. A verdade é que a própria gerente de projeto não sabia muito bem o que o cliente queria, mas com uma mentalidade tradicional de gerenciamento de projetos precisava iniciar o projeto e cumprir o prazo ridículo que havia dado por conta própria ao cliente, para mostrar serviço.

Em meio a algumas idas no banheiro pra chorar escondido, porque eu não podia transparecer meu desespero, prossegui. Fui obrigada a ficar na empresa aquele dia até umas 21h, porque o ritmo de produção era alucinante.

Eu não me conformava em precisar produzir conteúdos sem ter direito a entender sobre o que se tratava o projeto. Eu tinha certeza que essa falta de visão me faria refazer tudo em seguida e que o projeto atrasaria ou falharia. Mas ninguém dava a mínima.

Por longas semanas eu estive nesse projeto maluco e mal planejado. Felizmente algo aconteceu na época e eu fui trabalhar com outro projeto, não lembro ao certo.

Em outras experiências gerenciando produtos de software precisei lidar com stakeholders complicadíssimos. Era aquela história do porco e da galinha, que decidiram abrir um restaurante juntos, mas o stakeholder propôs que ele fosse a galinha, que daria os ovos e eu? O porco, que daria o bacon. Ou seja, eu estava sempre ferrada na mão de certos stakeholders, que pediam ou ordenavam coisas escabrosas e chegavam ameaçar me dedurar ao CEO da empresa se eu não cumprisse.

A maior experiência que tive em relação aos problemas que a falta de visão do projeto pode ser capaz, foi quando eu propus um novo produto para a empresa após diversas pesquisas e análises de mercado. Comecei a desenhá-lo e aos poucos precisei envolver alguns stakeholders para opinar. Conforme isso acontecia o fuxico corria pelos corredores sobre o novo produto. Aos poucos o burburinho começou, e espalharam por todos os cantos sobre o novo produto. O problema é que cada um falava sobre ele de um modo diferente. Comecei a me incomodar com o fato de ver cada um afirmando o que queria sobre ele, afinal, eu era a gerente responsável e não havia comunicado aquelas informações a ninguém.

Certo dia eu enviei um email para stakeholders específicos convidando-os para uma reunião. Estranharam o início dela, eu não os chamava para perguntar ideias, mas para pedir que todos preenchessem um papel. Alguns me olharam espantados e até me acharam petulante por aquilo. Mas a verdade é que eu precisava que cada um deles escrevesse de modo formal o que achariam que aquele produto seria.

Ao final da atividade cada um leu em voz alta o que pensava sobre o novo produto. Conforme cada um lia, ficavam surpresos ao perceber que as conversas de corredor transformaram o produto em várias coisas diferentes. Então eu alinhei com eles o que o produto seria e o que o produto não seria. Saímos todos da sala alinhados e a partir dali todos eram responsáveis por não disseminar informações errôneas sobre ele.

O que eu fiz foi muito simples e pode funcionar pra você: defini uma visão clara sobre o produto.

É muito simples fazer isso. Você pode informar à equipe que vai trabalhar em um projeto sobre o que ele se trata. Isso deve ser feito de início. Mas é claro que para chegar à essa visão clara é preciso que tenha existido bastante conversa com o cliente, para realmente entender o que ele quer. Por isso, não adianta que o responsável ache coisas sobre o projeto por si mesmo.

Exemplo de visão de projeto:

GoodFoods, uma rede de supermercados com lojas físicas, quer começar a atuar on-line, através de um portal. Nossa missão como empresa é criar este produto.  

Visão do Projeto: Desenvolver um canal de vendas on-line para GoodFoods fácil de usar e esteticamente agradável.

Pronto. Só isso. Comunique logo de cara, sem rodeios, sobre o que se trata. Só a partir dai envolva pessoas e prossiga com o projeto. Há pessoas que gostam de dificultar. Eu prefiro definir antes pra mim mesma do que se trata, entender bem o cliente e só depois informar, cara a cara, sobre o objetivo que temos no projeto.

Você pode usar um template igual a esse para definir uma visão de projeto:

O (nome do produto) é um (categoria do produto) voltado para (tipo de público) que possibilita (objetivo do produto). Seu (principal diferencial competitivo) e ele será acessado (tipo de canal de venda ou acesso).

Pratique, você verá como o simples resolve.

Flávia Gamonar
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